Silvio Santos antes de ser Patrão


Aos 14 anos, Silvio Santos decidiu ganhar a vida como Camelô…

Comprou uma carteira para guardar título de eleitor e saiu pela rua dizendo que era a última. Vendeu de imediato. Com o lucro, comprou mais duas peças. “É a última”, alardeava, escondendo a outra no bolso. Esperto, o garoto havia descoberto o filão na Avenida Rio Branco. Há dias observara os camelôs em ação. Queria encontrar uma maneira de ganhar dinheiro, sem muito esforço.

Foi então que decidiu apostar na carreira de camelô, profissão também ilegal naquela época. Era preciso, antes de tudo, atrair a atenção do público. Falar do produto, de suas funções e, só no fim, do preço. Usou até manipulações de moedas e baralhos para atrair novos fregueses. Com alguns dias de experiência, passou a vender mais que os outros camelôs “veteranos”. Chegou a ganhar cinco salários mínimos por dia. E tudo isso no horário do almoço do rapa.

O diretor de fiscalização da prefeitura, Renato Meira Lima, não prendeu Silvio, como fez com os outros camelôs. Decidiu dar uma chance ao rapaz, que tinha uma aparência melhor do que os colegas, falava bem e tinha boa voz. Em vez de levá-lo para a delegacia, Renato entregou-lhe um cartão para tentar um emprego na Rádio Guanabara. Mais uma vez, a sorte lhe batia à porta.

Na emissora, Silvio disputou uma vaga com outros 300 candidatos. Entre eles estavam nomes que despontariam na vida artística, como o dos humoristas Chico Anysio e José Vasconcellos (o gago Ruy Barbosa, da Escolinha do Barulho, na Rede Record). Acabou abocanhando o primeiro lugar. Mas a carreira na Rádio Guanabara durou apenas um mês. Como camelô, Silvio ganharia mais, trabalhando bem menos.

Silvio só trocou as ruas por um outro serviço quando ingressou no Exército. Ao completar 18 anos, escolheu a Escola de Pára-quedistas, em Deodoro. E como a ‘cana’ militar seria mais dura, caso fosse preso pelo rapa, Silvio tomou uma decisão: voltou a ser locutor, desta vez na Rádio Continental, em Niterói.

Nas idas e vindas enfadonhas das barcas da Cantareira, o locutor teve outra idéia: montar um serviço de alto-falantes. O jovem locutor fazia anúncios nos intervalos das músicas. Mais tarde, percebeu que, nas travessias para Paquetá, os passageiros costumavam dançar quando ligava o equipamento de som. Cansados, formavam até fila para beber água no bebedouro. Oportunista, Silvio fez acordo com a Antarctica para vender cerveja e refrigerante na viagem. Quem comprasse uma bebida, recebia uma cartela de bingo. Como prêmio, oferecia bolsa de plástico, jarra e quadro da Última Ceia.

Ele garante ter passado a ser o primeiro freguês da cervejaria no Rio. E acabou fazendo amizade com um diretor da empresa. Quando a barca sofreu um acidente e precisou ficar no estaleiro, Silvio foi convidado pelo diretor para passar uma temporada em São Paulo. Mais uma vez, abriu-se a porta da esperança e sua vida mudou ainda mais.

Topo-Esquerda: Silvio, 18, como paraquedista do Exército. Arquivo Pessoal.
Abaixo-Esquerda: Rádio Mauau. 1948 – Manuel Jorge, Miss Guanabara, Silveira Lima e Silvio Santos. Arquivo Pessoal.