Onde a Felicidade Começou

A primeira vez que Silvio Santos entrou no Baú da Felicidade foi uma decepção. Ele nada tinha a ver com aquilo. Estava ali, na Rua Líbero Badaró, colado ao Othon Palace Hotel, em São Paulo, a pedido do amigo e dono da empresa, Manoel da Nóbrega, para fechar aquela bodega e prometer aos clientes enganados que a dívida seria paga.

Em 1957, Manoel da Nóbrega, radialista de sucesso em São Paulo, foi procurado na Rádio Nacional por um alemão, que queria fazer uma Cesta de Brinquedos: as pessoas pagariam primeiro e, no fim do ano, receberiam um baú carregado de mercadorias. Na negociação, Nóbrega pagaria pelos anúncios e emprestaria seu nome à firma. O alemão cuidaria da empresa. Nóbrega fez a sua parte. Mil pessoas compraram a idéia, atraídas pelos anúncios, mas o sócio perdeu todo o dinheiro. Resultado: virou um baú de despesa para Manoel da Nóbrega, que recorreu a Silvio Santos para salvar a pele.

Bom de papo, sua função era convencer as pessoas a não fazer escândalos no jornal, já que o dinheiro seria devolvido. No quinto dia, Silvio, então com 27 anos, percebeu que o negócio, bem administrado, poderia render uma fortuna.

Ele fez a mesma proposta que o alemão: Nóbrega continuaria com os anúncios, enquanto ele tocaria a empresa. Chegou a encomendar 40 mil bonecas, na Estrela, e fez negócio com a fábrica Nadir Figueiredo para entregar 20 mil jogos de jantar.

Nóbrega ficou receoso com volume do negócio. “Olha, Silvio, eu nunca fui ao Baú, ne m com o alemão e nem com você. Acho que qualquer dinheiro que o Baú possa me dar é desonesto, porque nunca fiz nada pela firma, a não ser os anúncios. Como você é um rapaz corajoso demais, tenho medo que possa fazer um negócio muito grande e, com seu entusiasmo, dê uma cabeçada”, disse Nóbrega.

Nóbrega o ajudara no início em São Paulo. Por acaso, Silvio encontrou um amigo em suas andanças por São Paulo. Era um locutor que conhecera na Rádio Tupi, no Rio. Ele comentou que a Rádio Nacional precisava de locutores. Silvio fez o teste e passou, em primeiro lugar. Foi quando conheceu Manoel da Nóbrega.

Em São Paulo, Silvio atuou em várias frentes. Para pagar a dívida do bar que montara na barca, no Rio, entrou em sociedade com o cunhado de Hebe Camargo, Ângelo Pessutti, lançou uma revistinha com prêmio e atuou até em circo.

Em caravanas pelo interior de São Paulo, Silvio ganhou um novo apelido: o Peru que Fala. Nas apresentações, ficava envergonhado, e seu rosto logo ruborizava. Ele trabalhava intensamente. “Foi nessas ‘Caravanas do Peru que Fala’ que eu adquiri a facilidade que hoje tenho para animar meus programas”, disse Silvio a Arlindo Silva.

O sucesso do Baú fez Silvio Santos se lançar em outro negócio. Em 1961, ele estreou na televisão com um programa noturno na TV Paulista, atual TV Globo. O Peru que Fala deu o pulo do gato.

 

Topo-Esquerda: Silvio. Foto: Lorival Gomes.
Meio-Direita: Revista Intervalo. Abril de 1963. Reprodução.
Abaixo-Esquerda: Silvio Santos e a então namorada, Madalena. 1954. Arquivo Pessoal. Foto: João B. da Silva.
Abaixo-Direita: Silvio Santos. Foto: Moacir dos Santos.